| |
A HUMANIZAÇÃO DOS CUIDADOS DE ENFERMAGEM
Por: Luciene Corrêa Miranda
Professora na Escola de Enfermagem da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora
Mestre em Psicologia
lucienecm@yahoo.com.br
A humanização do atendimento na área da saúde é uma realidade relativamente recente e que deve englobar toda a equipe multidisciplinar (médicos, profissionais da enfermagem, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, recepcionistas, funcionários de higiene e limpeza, dentre outros), a família e, principalmente, o paciente.
Humanizar é preocupar-se com a ética, o respeito, a integralidade do ser humano e com o ato de cuidar. Curar doenças é a principal meta da equipe de saúde, porém isto não basta, é importante pensar em como isto será feito, garantindo ao paciente dignidade e qualidade de vida.
A enfermagem é a arte do cuidar do outro de forma holística, enquanto ser biopsicossocial e não apenas tratar do corpo adoecido que padece. Por isto, não é mais possível pensar em enfermagem sem pensar na humanização do atendimento. Algumas características são essenciais no que diz respeito à humanização, as quais serão enumeradas a seguir:
- Manter uma constante preocupação ética: Se a ética envolve preocupar-se com as conseqüências de seus próprios atos sobre as outras pessoas, ter uma postura humanizada é, em linhas gerais, não fazer com os outros o que não se gostaria que fizessem com você num momento em que, ao invés de profissional, você estiver ocupando o lugar de paciente ou familiar.
- Ter empatia: A partir do momento em que o profissional se coloca no lugar do outro, ele passa a agir com ética, respeito e, consequentemente, com humanização.
- Chamar o paciente pelo nome: O paciente hospitalizado, principalmente por longos períodos, precisa deixar tudo o que é seu de lado: sua casa, sua família, seus amigos, suas roupas, sua liberdade de ir e vir. Portanto, não podemos deixar que ele perca sua identidade, seu próprio nome. O profissional humanizado chama o paciente por seu próprio nome e nunca se refere a ele como “o paciente do leito tal” ou, pior ainda “o paciente com tal patologia’.
- Respeitar o corpo e a sexualidade do paciente. O profissional da enfermagem lidará de perto com a intimidade do paciente, independente de seu sexo, o que poderá causar no paciente alguns constrangimentos. Agindo com humanização, o profissional fará esta experiência o menos constrangedora possível, não deixará o paciente exposto sem necessidade, cuidará para que o mínimo possível de pessoas o vejam nu, não fará comentários desnecessários, enfim, cuidará para que o paciente se sinta cuidado e respeitado, não invadido e exposto em sua intimidade.
- Respeitar e entender o paciente em cada etapa do desenvolvimento humano, ou seja, tratar crianças como crianças, adultos como adultos, idosos como idosos. A situação de doença deixa todos mais vulneráveis e regressivos, mas não é recomendado tratar adultos e idosos de maneira infantilizada. Da mesma forma, não tratar crianças como adultos; fazer os procedimentos, porém respeitar o medo e a necessidade de brincar da criança.
- Envolver a família no processo de recuperação do paciente. Não compreender o familiar apenas como aquele que tumultua a dinâmica hospitalar, que enche o profissional de perguntas, mas como aquele que gosta do paciente e quer tê-lo em breve de volta à casa deles. O familiar deve ser acolhido no ambiente hospitalar, sua presença pode ajudar a melhorar o estado geral do paciente.
- Invista num bom relacionamento com a equipe. Ninguém gostaria de ser cuidado por uma equipe que demonstra mau entrosamento ou que discute na frente do paciente. Trabalhem em equipe, dividindo esforços e somando resultados, isto é humanização! Assim, ninguém sairá sobrecarregado, consequentemente, a satisfação do trabalhador será maior.
- Não faça apenas procedimentos, ouça o paciente. O profissional da enfermagem é aquele que passará mais tempo com o paciente enquanto ele estiver hospitalizado, portanto, durante os atendimentos, procure ser cordial, ouça o que o paciente tem a dizer. Isto pode fazê-lo sentir-se acolhido e minimizar sua ansiedade.
- Estimule a fé e a esperança, mas respeite os momentos de tristeza do paciente. Sabemos que o ser humano é finito e o quanto é difícil para o paciente admitir que seu estado é grave ou para a família pensar na hipótese de que a vida do seu ente querido está chegando ao fim. O profissional da enfermagem deve investir na humanização nestes casos extremos, respeitando as crenças, opiniões e atitudes do ser fragilizado que está ao seu lado.
Enfim, fica claro entender que o profissional da enfermagem deve se atentar a dois grandes pilares em sua práxis: a correta realização de procedimentos técnicos instrumentais e a humanização das relações que acontecem na dinâmica de cuidados. Tudo isto resulta num trabalho ético e de qualidade.
Também é importante ressaltar que, quando falamos em humanização, normalmente pensamos no ambiente hospitalar, porém a humanização pode acontecer também em outros locais. Sabemos que o campo de atuação do profissional da enfermagem é muito amplo, ele pode atuar, além de hospitais, em UBS, clínicas, residências, instituições de longa permanência para idosos, clubes, escolas, empresas, consultórios, centros de atenção psicossocial, dentre outros locais. É importante que o profissional consiga levar os princípios da humanização para estes diferentes locais de trabalho, beneficiando assim profissionais, pacientes e familiares.
A humanização é uma prática recente, portanto, que não era explícita na formação acadêmica de antigos enfermeiros, técnicos e profissionais de enfermagem. Infelizmente, devido a isto, ainda hoje é possível observar práticas desumanas por parte de profissionais da enfermagem. Cabe aos profissionais mais antigos se adequarem a esta assistência mais humanizada e aos novatos de não deixarem de lado os conceitos teóricos da humanização que estão sendo aprendidos nas faculdades e cursos de formação.
|
|